Os problemas de Noronha

Com tantas reportagens elogiosas, tantos turistas maravilhados, tantas fotos paradisíacas, não é difícil pensar que Fernando de Noronha é de fato o que de mais próximo existe do paraíso na terra.

Em geral, as equipes de reportagem que vão a Noronha informam a Administração com antecedência. Com isso, por um lado garantem mordomias (muitas despesas pagas), mas por outro perdem autonomia (o Governo leva as equipes apenas para os melhores pontos).

Uma reportagem publicada pelo jornal pernambucano Jornal do Commercio intitulada O Paraíso às Avessas procurou mostrar o outro lado de Noronha.

E o jornal mostrou o dia a dia dos moradores de Noronha, que tem problemas com saúde precária, educação precária, pobreza e favelas, como todas as grandes cidades brasileiras. Mas mostrou também que várias das qualidades que tornam a ilha encantadora para turistas (acesso controlado, preservação ambiental, etc) fazem ao mesmo tempo a vida dos moradores mais difícil.

Por exemplo, em Noronha não há trânsito, pois o número de carros é pequeno (há um total de aproximadamente mil veículos na ilha), e controlado pela Administração. Isso é bom para o turista, que não enfrenta congestionamentos – e, quando necessário, recorre ao buggy. Mas e o morador, que precisa de um veículo para se deslocar?

A solução é comprar uma das poucas licenças existentes, a um valor que chega a R$ 60 mil. É verdade que em outras cidades existe um mercado paralelo de licenças, mas nessas cidades a licença é para táxi, enquanto em Noronha a licença é para um carro comum

Mas esse não é o maior dos problemas. A reportagem mostrou que Noronha não tem hospital (há apenas um posto de saúde para cuidados básicos), não há boas escolas (as crianças de diferentes níveis tem que dividir espaços, ainda assim em instalações precárias), não há tratamento de lixo (muito embora a taxa de preservação, que todo turista paga, devesse em tese ser destinada para pagar o transporte do lixo para o continente), etc.

E isso tudo, ainda segundo a reportagem, é reflexo da má administração. Noronha não tem prefeito ou governador, tem um Administrador que é nomeado pelo Governador de Pernambuco. Por isso, aos cidadãos de Noronha é ainda mais difícil manifestar reprovação dos governantes através do voto.

A reportagem cita casos de conduta suspeita da Administração. Por exemplo, um visitante, por ter ficado anos e anos em Noronha sem pagar a Taxa Ambiental, foi multado em mais de R$ 240.000,00; o Administrador, após comprometer-se a cobrar a multa, preferiu expedir ao sujeito uma permissão de moradia em Noronha, livrando-o assim da multa.

A reportagem conversou com os moradores da ilha, visitou os recantos mais escondidos, que ficam escondidos dos olhos dos turistas.

Da próxima vez que visitar Noronha, lembre-se de que, apesar das paisagens de paraíso, ela tem muitos problemas da vida real.

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